10 de maio de 2016

As melhores coisas do mundo #2

Naquele dia, ela acordou estranha.

Resolveu usar uma blusa que não vestia há meses. Colocou-a, mas não se sentiu como antes. Achou estranho, mas estranho do que aquela manhã estranha. A blusa certamente continuava a mesma, não mudou de textura, nem tamanho, nem cor.

Foi ao espelho e ficou a mirar-se. Mudou de posição, virou, revirou, ajeitou, mas nada parecia fazer diferença. Percebeu então o problema. Não era a roupa que havia encolhido ou alargado e nem o seu corpo que havia crescido. Era ela que não era mais a mesma, por dentro. Sorriu de volta para o seu reflexo e depois incluiu à lista:

2- Perceber que você mudou, por conta própria.

23 de julho de 2014

Até uma outra vida! (ou até semana que vem)

Acho que vou juntar esta às outras cartas que te escrevi mas nunca te entreguei. Talvez por medo de quais conclusões você pudesse elaborar, ou da tua falta de reação. Só sei que sempre que começava a escrever, já logo me via desistindo da entrega.

Enquanto eu escutava aqui a nossa música com o botão do repeat acionado, a gente ia e voltava em câmera lenta em minha mente, mais uma vez buscando entender o que foi o e o que não foi de nós. Terminada a melodia - bem naquele intervalo entre o fim e o recomeço do nosso filme melancólico - pego-me pensando que essa dúvida já é algo considerado perdido. Com o tempo, não sei se aprendi a te esquecer, mas sei que aprendi a ver os teus erros e a tua imperfeição.

Por isso te escrevo - embora você nunca saiba de tal carta - e digo com todas as letras: cansei de você. Cansei das lamúrias e desistências, principalmente das tuas desistências! Sei bem que aquela tua maldade que vem disfarçada de necessidade de voltar para mim é apenas uma estratégia barata para sentir o prazer de me abandonar no minuto seguinte. Eu te conheço bem, não adianta esconder - inclusive, conheço-te tão bem que sei exatamente o seu sorriso de felicidade de quando alguém se lamenta à sua custa: aquele prazer louco de se sentir desejado, amado, querido.

Fiz loucuras por você. Cheguei a arrancar os cabelos, a me desesperar, a te desejar sofrimento igual. Hoje já não faço mais nenhuma dessas coisas. Considero-as bobagens de um passado meio estranho que hoje só está guardado em uma música; na nossa música, a única coisa que restou de nós dois.

Acho que te esqueci de vez. Mas jamais permitirei que você me esqueça.

Passar bem.

PS: Aquele seu CD (qual era mesmo o nome?) que você vivia dizendo que te fazia lembrar de mim ainda está aqui, me encarando da minha escrivaninha. Se você ainda preza pela integridade do objeto, venha buscar (mas faça-me o favor de escolher um horário em que eu não esteja presente, detesto encontros confusos e você bem sabe). E só para avisar: acho que ele está riscado. Toca uma música só. Aquela música. Boa sorte com isso.

Ilustração: LeUyen Pham

4 de abril de 2014

Como fazer meu próprio livro #01: E agora, José?

No final de 2012 resolvi fazer uma coisa inédita: escrever um romance. Inédito porque até, aquele momento, apenas escrevia pequenos textos desconexos e afins - nunca tinha me arriscado em construir uma trama, personagens, um começo, um meio e um fim.

A verdade é que foi tudo meio no improviso. Construí uma história e fui fazendo os acontecimentos se desenrolarem em pequenos capítulos, baseando-me nas coisas que iam acontecendo comigo e com meus amigos. Escrevia os capítulos durante as aulas durante o meu 3º ano do Ensino Médio (estudar para a Fuvest que é bom, nada, né) e, todas as noites, enviava por e-mail os novos episódios da história para as pessoas mais próximas e que me viam escrevendo. Não demorou muito tempo e comecei a receber pedidos e mais pedidos pelos próximos capítulos e assim a coisa toda foi acontecendo.

Hoje tenho em mãos uma história de mais de 200 páginas dividida em três partes e escrita ao decorrer de pouco mais de um ano.

Por muito tempo deixei-a trancada a sete chaves (ninguém chegou a ler a história até o fim porque resolvi não enviar mais capítulos por conta de vergonha e continuei escrevendo meio escondida), mas agora, depois de um ano já tendo terminado, resolvi reler e refletir sobre a possibilidade de algum dia tornar ~o meu livro~ em algo público.

"Uau! Mas você já escreveu ele inteirinho! Tá esperando o que para enviá-lo por todas as editoras do cosmos?"

É aí que está o X da questão. Escrever ou publicar o livro é algo muito mais complicado do que simplesmente sair colocando no papel tudo que der na telha! Ao reler o livro, fui percebendo uma série de problemáticas de construção da narrativa, personagens um tanto quanto rasos e muitas outras coisinhas (que às vezes incomodam muito mais a quem escreve do que a quem lê de fato).

Por isso, para me obrigar a tranformá-lo em algo que seja mais instigante e, ao meu ver, digno de ser publicado, resolvi postar aqui semanalmente os desafios e as etapas de um trabalho de edição do meu livro, hoje chamado "Delírios" - mas é importante lembrar que, a essa altura, nada é permanente.

Ainda estou repleta de dúvidas: por onde começar? O que fazer? Como reescrever? Mas acredito que isso tudo será resolvido com o tempo e (muito) esforço. Afinal, a Ramona, minha protagonista, merece uma história de verdade.

6 de março de 2014

'Livros que amamos odiar' - Plástico Inédito 01

Eu sei que andei meio ausente e sei que não deveria. Mas a minha volta será em grande estilo: trata-se da estréia da tag 'Plástico Inédito' feita em parceria com a querida Yasmimis! O vídeo não está lá essas coisas - a gente promete que vai melhorar - mas é o começo de uma nova etapa em nossos blogs: afinal, postar um vídeo seu falando um monte de coisas na Internet não é para qualquer um.



A ideia da tag surgiu quando nós duas resolvemos nos ajudar a manter nossos respectivos blogs sempre atualizados. Por isso, tivemos a ideia de manter uma tag mensal com vídeos sobre coisas diversas e, quem sabe mais para frente, posts em conjunto.

Para começar, resolvemos chutar o balde e falar sobre cinco livros que adoramos odiar. Postar isso aqui pode ter sido um erro ou a chave para um grandioso sucesso, mas isso tudo não temos como saber; o que você pode fazer por enquanto é assistir a um vídeo de duas garotinhas nervosas falando mal sobre best-sellers e, quem sabe, se divertir um pouquinho - nem que seja sobre a câmera torta ou a quantidade absurda de vezes em que falo "tipo" (ei, eu tava nervosa, tá legal?).



Você tem algum livro que também ama odiar? Pode comentar aqui para a gente! E aguardem os próximos posts!

12 de fevereiro de 2014

Sobre uma história que não está nos livros de História

Na segunda-feira de manhã me despedi de Tio Paco, Laura e Ana antes de vir para o trabalho. Uma despedida normal, durante o café da manhã, aparentemente como qualquer outra despedida de familiares que moram longe. Porém, apesar de parecer apenas uma simples despedida, não foi assim que senti dentro de mim.

Tio Paco não é apenas um tio qualquer que mora a quilômetros e quilômetros de distância. Além de todos esses requisitos básicos, a sua presença e a de Laura são também o contato direto com uma história contada tantas e tantas vezes, mas que, já há algum tempo, perdeu seus contadores.

Minha família - assim como a de milhares e milhares de pessoas - foi vítima dos acontecimentos de um grande conflito, a Guerra Civil Espanhola. Tendo isto em mente desde pequena, sempre procurei detalhes a respeito deste período histórico, fosse nas aulas, ou nos livros didáticos. No entanto, nunca senti que houvesse (pelo menos aqui no Brasil) um aprofundamento sobre o assunto - na maior parte das vezes ofuscado pelos acontecimentos da Segunda Guerra. Contudo, a curiosidade continuava, ainda mais quando perdi meus abuelos (ou avós, para quem desconhece a palavra), os elementos vivos de uma história de filme.

A vinda de Tio Paco para o Brasil representou o contato renovado com essa história e só tornou ainda mais intensa a reaproximação da família. Juntos, pudemos reviver e conhecer novos episódios: a verdade por trás do "mito" da cama exposta na Casa de Goya em Fuendetodos, a paixão fulminante de minhas tias após serem libertadas pelos herois republicanos em um tanque de guerra, a história do fuzilamento de meu bisavô Baldomero (e o rumor de que ele teria gritado "Viva la República!" antes de ser atingido pela bala), a caminhada de minha abuela Aurora pelos Pirineus até a França, onde foi realocada em um campo de concentração nazista e tantas outras.

As fotos, os episódios e a presença de todos surtiu uma sensação estranha dentro de mim. Senti saudade de pessoas que nunca conheci e de momentos que nunca vivi. Senti, mais do que nunca, que aquela história era também minha. Lembrei-me de como a minha abuela sempre dizia: "A pior guerra é a guerra civil. Porque a guerra civil separa famílias". Comecei a pensar como é ter que deixar a sua casa, a sua cidade e o seu país por acreditar que um mundo possa e deva ser diferente; como é ter uma ideia tão forte capaz de separar completamente uma família. Pensei também nas mulheres e em suas forças sobrenaturais, capazes de sustentar a estrutura familiar em meio a todo o caos possível - e como nunca receberam qualquer reconhecimento por isso. Pensei em como deve ser reconstruir uma vida em outro lugar, uma vez que o passado e todas as outras possíveis oportunidades de vida ficaram perdidos lá atrás.  Pensei em como é passar por tantas desgraças e, ainda assim, tentar sempre "ver a vida em cor-de-rosa".

Pensei também em como situações como essas acontecem com mais frequência do que imaginamos - situações essas que também não são descritas nos livros de História.

Mas, acima de tudo, dei-me conta do orgulho que sinto de ser mais um capítulo dessa narrativa e de meus valores e formação serem frutos do acreditar nessa justiça social utópica e do sonho por uma realidade melhor. Sinto-me orgulhosa de ser uma parte (ainda que pequena) da comprovação de que ideias são, de fato, à prova de balas.

A casa de meus bisavós em Fuendetodos, povoado localizado na comunidade autônoma de Aragão, Espanha, em 1937. Meu bisavô Baldomero, prefeito do povoado, já havia sido fuzilado por conta de seu posicionamento republicano e contrário aos ideais de Franco. Meus tios-avós e meu avô encontravam-se na casa no momento do bombardeio, mas conseguiram sobreviver. Alguns meses depois, o povoado foi evacuado devido ao avante das tropas rumo à Barcelona. Minha família conseguiu fugir para a França, onde passaram anos exilados, deixando uma vida inteira para trás.